6 de out de 2008

A Lua que não dei

Compreendo os pais - e me encanto com eles - que desejariam dar o mundo de presente aos filhos. E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que filhos lhes pedem nos shoppings, onde exercitam arremedos de paternidade.
Dar o mundo é sentir-se um pouco como DEUS, que é essa a condição de um Pai. Dar futilidades como barganha de amor é, penso eu, renunciar ao sagrado. Volto a narrar, por me parecer apropriado á croniqueta, o que me aconteceu ao ser Pai pela primeira vez. Lá se vão 45 anos. Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço Via-a sugando os seios da Mãe, esperneando na banheira, dormindo como anjo de carne. E, então, eu me prometia, prometendo-lhe:- ' dar-lhe-ei o mundo, meu amor,' E não lhe dei. E foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e da estupidez de confundir valores materiais com morais e espirituais. Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua. E não me esqueço de como ela pediu a Lua, há anos já tão distantes. Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas. Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homem do mundo, andando, cantarolando cantigas de ninar em plena calçada.Pois é a plenitude da felicidade um homem jovem poder carregar um filho como se acariciando as próprias entranhas. Minha filha era eu e eu era ela! Um Pai é, sim, um pequeno DEUS, o criador. E seu filho a criatura bem amada. E foi, então, que conheci a impotência e os limites humanos. Pois a filhinha - a quem eu prometera o mundo - ergueu os bracinhos para o alto e começou a gritar, assanhada: 'Dá, dá, dá...' Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar.
Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha me pediu a Lua e eu não pude lhe dar. A certeza de meus limites permitiu, porem, criar um pacto entre pais e filhos: ' se eles quisessem o impossível, fossem em busca deles '. Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e, Portanto, estímulo aos grandes Sonhos. E o Sonho da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me amolece o coração. Pois ainda adolescente, lá se foi ela embora, querendo estudar no Exterior.Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Kalil Gibran em sussurros de consolo: ' Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vós, mas não são de nós. E embora vivam conosco, não vos pertencem. (...) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 'Foi o que vivi, quando o avião decolou, minha criança a bordo. No céu, havia uma Lua enorme, imensa. A certeza da separação foi dilacerante. Minha filha fora buscar a Lua que eu não lhe dera. E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: ' O lar não é o lugar de se ficar, mas para onde voltar' Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para onde voltar quando o cansaço, a derrota ou o desânimo, inevitáveis... Lhes machucarem a alma. Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua, levando-me a filha querida, o salgado das lágrimas se transformou em doçura de conforto com Kalil Gibran. Como Pai, não dando o mundo nem a Lua aos filhos, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direção ao mistério. Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois Família é uma tribo em construção permanente. Pais envelhecem, filhos crescem, dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obra da criação se renova sem nunca complementar-se. De guerreiros que foram , pais se tornam pajés. E mães, curandeiras da alma e do corpo. É quando a tribo se fortalece com conselheiros, sábios que conhecem os mistérios da grande arquitetura familiar, com régua, esquadro, compasso e fio de prumo. E com palmatória moral para ensinar o óbvio:
' se o dever premia, o erro cobra '. Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias de pajé, de índio velho. A nossa construção está ruindo, pois feita de areia movediça. É minúsculo mundo que pais querem dar aos filhos: O dos shoppings. E não há mais crianças e adolescentes desejando a Lua como brinquedo ou como conquista. Sem Sonhos, os tetos são baixos e o infinito pode ser comprado em lojas. Na construção familiar, temos erguido paredes. Mas dentro delas, haverá gente de verdade?


Texto publicado em 01/08/2008 no ' Correio Popular ' - Campinas

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