6 de mar de 2010

Mulher na prateleira

MULHERES, CERVEJAS e DEVASSAS
Reflexões urbanas
Por Flaviana Serafim

Bem loura. Bem devassa. Finalmente ela chegou, pegando os cervejeiros de plantão pelo colarinho. Da janela de seu apê (como que fazendo um show para os cariocas em Copacabana), Paris Hilton desfila, faz caras e bocas com latinha de cerveja na mão enquanto sua imagem é devassada pelo olho comprido do vizinho, do velhinho que joga dominó na calçada, pelas moças e rapazes que circulam na praia. Inocente, não? Então porque será que a propaganda, criada pela agência Modd para a Schincariol está gerando tanta polêmica?
De um lado, os bebedores de cerveja estão abismados, considerando essas críticas absurdas, falso puritanismo num país tropical, do carnaval e das mulatas seminuas. Do outro, mulheres revoltadas questionam o uso da imagem da fêmea fatal para vender cerveja.
Para além das imagens, que misturam tesão, cerveja e a bad blond girl Paris Hilton esfregando uma lata de cerveja pelo corpo, o nome "Devassa" é dos piores que algum marketeiro poderia escolher. Quem será esse gênio? Acredito que ficou pesado primeiro pelo nome, depois pela propaganda de mal gosto. Já que era pra devassar, deviam colocar a fofolete Paris Hilton de quatro no rótulo, oras!
No site oficial do produto, a Schincariol explica: "Uma cerveja que se autoproclama DEVASSA deve ser no mínimo autêntica. Porque assume tudo o que as outras gostariam de ser, mas tem vergonha". Tenta mudar o significado de devassar, afirmando que "Devassa é bem alegre, tem aquele astral que atrai coisas boas (...). Pedir uma Devassa tem a dose certa de segundas intenções". Esse mote diz tudo sobre o que saiu da cabeça do infeliz publicitário botequeiro que criou essa peça. E finaliza: "Com Devassa, a vida fica bem gostosa".
Eis as definições para devassar no dicionário Michaelis:

> de.vas.sar
vtd 1 Invadir ou observar (aquilo que é defeso ou vedado): Devassar a casa do vizinho. vtd 2 Ter vista para dentro de: Nossa janela devassa os outros apartamentos. vtd 3 Descobrir, penetrar, esclarecer: "...o desejo nos levou a devassar os segredos dessas terras afastadas" (Gonçalves Dias). vtd 4 Olhar, contemplar: "Saíra, abriu os olhos e devas­sou a sombra com pavor" (Coelho Neto). vti 5 ant Fazer inquirição, devassa: Devassar da cumplicidade no crime. vtd e vpr 6 Prostituir(- se), tornar(-se) devasso: A miséria e a fome devassaram-na. Sem moral nem religião, devassou-se. vpr 7 Vulgarizar-se, generalizar- se: A moda devassou-se.

A polêmica propaganda foi "censurada" pelo Conselho de Autorregulação Publicitária (CONAR). É preciso destacar as aspas dessa "censura" porque a medida foi tomada por um órgão ligado ao próprio mercado publicitário, apesar dos defensores da campanha reclamarem da interferência do governo federal (uma queixa foi apresentada pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres).
Com moralismo barato ou justa autoregulamentaçã o, a polêmica é ótima para trazer à tona dois debates ignorados pelos consumidores, marketeiros e pela mídia: 1. o quanto e como a imagem das mulheres é usada para vender qualquer coisa; 2. os limites do apelo para estimular o consumo de bebida álcoolica.
Para os devassos cervejeiros nada vai mudar. Na verdade, toda essa discussão tende a aumentar a exposição e as vendas da marca. E não acredito que esse fato isolado vai abrir os olhos femininos para que as mulheres deem conta do abuso a que estamos expostas, vendendo lixo ou carrões bacanas. Mas é um começo. Basta devassar outras propagandas e perceber que muda loura - ou a morena - mas as mulheres continuam lá, expostas como carne em vitrine de açougue.
Flaviana Serafim é jornalista e blogueira do São Paulo Urgente
Mais um pouquinho para ampliarmos a reflexão...
QUEM É ESSA DEVASSA?
Por Eduardo Guimarães

Foi um massacre a reação da mídia contra a decisão do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) de suspender a exibição de propaganda da cervejaria Schincariol que se utilizou da bombshell Paris Hilton para promover o lançamento de sua cerveja batizada como “Devassa”.
Nos jornais e em dezenas de sites e blogs ligados aos grandes meios de comunicação, a reação foi de uma ironia uníssona por conta de uma medida tida como “moralista”. Os tantos textos nesse sentido parecem ter sido escritos todos pela mesma pessoa.
A tese pseudo liberal seria a de que em um país de sensualidade marcada de suas mulheres e no qual várias outras propagandas de cerveja apelam para a sensualidade mostrando mulheres de “fio-dental” na praia, seria ridículo proibir a propaganda da cerveja Devassa por conta das poses sensuais de Paris em um comportado “tubinho” preto.
O Conar deliberou nesse sentido por moto próprio e também sob denúncias de consumidores e da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, órgão do governo vinculado à Presidência da República. Ter um órgão do governo Lula vinculado à decisão do órgão regulador gerido pelo setor publicitário foi o que bastou para começar a gritaria midiática sobre “censura”.
Particularmente, sou contra o moralismo. E se, de fato, formos analisar a indumentária de Paris Hilton na propaganda proibida, veremos que, em termos de permissividade, nem se compara aos trajes de praia das propagandas das outras cervejarias, as quais encasquetaram que devem associar o consumo de álcool a jovens saudáveis e de corpos “sarados” divertindo-se saudavelmente na praia.
Contudo, a meu ver é escandalosamente claro que a propaganda da Schincariol é mais inaceitável do que as outras. Apesar de ser absurdo associar jovens saudáveis a consumo de álcool, isso vem sendo feito de forma a não denegrir grupos sociais ou de gênero. Jovens usarem roupa de banho na praia é um comportamento absolutamente normal. Exaltar a devassidão de uma mulher, não.
Uma mulher devassa é uma mulher libertina. Conforme explica o Houaiss, libertino é aquele que leva uma vida dissoluta, que se entrega imoderadamente aos prazeres do sexo, que revela irreverência a regras e dogmas estabelecidos, especialmente à religião e à prática desta, que não tem disciplina e que negligencia deveres e obrigações.
Quando uma propaganda de cerveja diz que a Juliana Paes é “boa”, é por ela ser bonita. E quando a exibe na praia em trajes que qualquer moça de vida regrada usa, não vejo estímulo a comportamentos degradantes como o da foto acima, feita no âmbito da campanha publicitária em que logo em seu lançamento a protagonista fica “de quatro” em uma festa com uma lata de cerveja na mão.
Essa gritaria midiática contra uma medida correta de proteção à imagem da mulher e contrária ao estímulo a comportamentos degradantes como a devassidão pode até ser prestação de serviço à cervejaria que fez a propaganda. Contudo, o fato de se poder usar a decisão do Conar para atacar mais um pouquinho o governo, deve ter pesado muito.
Eduardo Guimarães é presidente do MSM - Movimento dos Sem Mídia e escreve o blog cidadania.com

Eu, Ana Paula, mulher, quero destacar o seguinte parágrafo:

"A tese pseudo liberal seria a de que em um país de sensualidade marcada de suas mulheres e no qual várias outras propagandas de cerveja apelam para a sensualidade mostrando mulheres de "fio-dental" na praia, seria ridículo proibir a propaganda da cerveja Devassa por conta das poses sensuais de Paris em um comportado "tubinho" preto".

Bem... qualquer mulher tem o direito de ficar de quatro, com tubinho ou sem tubinho, seja ele preto ou vermelho, inclusive com uma lata de cerveja na mão. Também tem todo o direito de ir a praia de fio-dental e tomar sua cervejinha... O que não é concebível é tornar o Feminino produto de supermercado e ainda dos mais baratos. Não estou dizendo que seria a favor se fosse um produto mais valorizado e encontrado somente em mega-shopping's... estou querendo, na verdade, convidá-las à refletir sobre uma questão que norteia as propagandas em questão: a SEXUALIDADE e a SENSUALIDADE FEMININA.
O que estamos fazendo com nossa Sexualidade? Que relação temos com nosso corpo e com estas duas propriedades (entende-se próprio da mulher)?











Não sou contra as moças que ganham o "pão de cada dia" servindo cerveja ou fazendo poses, nem contra as mulheres que vivem (ou sobrevivem) vendendo sua imagem.
Também não vou entrar na questão "papel da Mídia" e "decisão do CONAR", isso já está batido. Quero incentivar uma reflexão sobre o que pouco se fala (se é que hove algum comentário)... Quero chamar nossa atenção para a responsabilidade (ou contribuição) da mulher na desvalorização do Feminino ou na redução dela à um produto. A tal ponto que é preciso que órgãos ou instituições públicas saiam em nossa defesa e garantam nossos direitos, porque a própria mulher não se valoriza. Absurdo isso!!! Fico p... da cara.
((Juliana, me desculpa, te acho linda, mas assim não somos mais amigas!))
Mulheres, por favor, se valorizem!! Cuidem do Sagrado!
Se você virar um produto de prateleira vai faltar "mulher de verdade" na cama.
(Agradeço os textos que nos foram enviados pela Ieda Pires, da Coordenadoria de políticas setoriais e Direitos Humanos de Cruz Alta)
Ana Paula Andrade
Imagens google

2 comentários:

Daiane Ribeiro disse...

Bom, o que posso dizer se até mesmo algumas colegas de dança já se renderam a esta mesma marca? Conversando com outros grupos chegamos a seguinte conclusão: a propaganda desta cerveja é de extremo mau gosto por que além de exaltar qualidades femininas que não condizem sequer com o conteúdo de ambos os produtos (Paris Hilton e a própria devassa), buscam através do uso da imagem e do rótulo comportamental de uma criatura estrangeira que mal deve saber em português o significado da palavra, vender essa droga por aqui. Apesar de não gostar de propaganda de cerveja e ser uma péssima usuária da própria, ainda é mais aceitável ver a Juliana de forma um pouco mais apropriada e consciente na imagem da mulher como "paixão nacional" termo equivalente a uma garrafa de cerveja, rsrsrs.
É fogo, heim, Ana?

Clã Filhas da Lua disse...

Rsrsrs, é verdade Dai. Gosto da Ju... hehehe.
Bjos

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