15 de jan de 2010

A cura do abandono do pai

Este texto comecei a escrever no ano passado, reflexo de um trabalho em Círculo de Mulheres, realizado em outubro de 2008. Percebendo as intensas curas que estavam se procedendo dentro de mim comecei a escrevê-lo, mas os processos fortíssimos de transformações que ainda ocorriam, não me permitiram concluí-lo. Mas na primeira semana de 2010, repousando um pouco em Garopaba/SC, re-vendo o ano que se passou e me despedindo definitivamente de 2009, em uma lua minguante, enquanto sentia meu sangue verter, consegui encerrar esta história.

A CURA DO ABANDONO DO PAI
Sinto-me chamada a compartilhar uma experiência de re-encontro de almas...
Fui casada durante sete anos com uma pessoa maravilhosa, compreensiva, dócil, que nunca dificultou minhas buscas espirituais (e isso para mim era muito importante). Os anos se passavam e mesmo percebendo muitas semelhanças dele com meu pai, nunca percebera que havia casado com a figura paterna de minha infância.
Sabia que meu antigo companheiro sentia uma enorme carência de mãe e via em mim a segurança e o acolhimento da figura materna, disso eu tinha consciência, mas não sabia o quanto eu era carente de pai.
Depois de uma única sessão de terapia com alguns pontinhos do corpo bem apertados (mechendo em algumas couraças) e uma vivência xamânica junto à natureza, foi como retirar a tampa e olhar para dentro, comecei a refletir sobre algumas questões e relações da minha vida. Ao fazer uma retrospectiva do meu casamento vi quantas vezes desejei que meu ex-companheiro fosse diferente... cobrava dele coisas que ele não conseguia desempenhar.
Quando me dei conta que não estava respeitando aquela individualidade, tomei consciência que estava sendo cruel com ele e comigo mesma (mas com certeza meu ego se agradava em sentir-se indispensável como uma Mãe). Passei a perceber que alimentávamos nossas carências de genitores, já que conseguíamos ter em nossa relação aquilo que nos faltara de nossos pais.
Sempre na busca do auto-conhecimento, me dispus a olhar para minhas sombras e identificar padrões que se tornavam obsoletos em minha vida. Re-conheci algumas faces de mim mesma e olhei para os fragmentos do meu feminino... decidi, então, aprofundar-me nesta busca e inevitavelmente optei: não quero ser mãe do meu marido!
Como explicar isso a alguém que não tem consciência do que está acontecendo? Externamente tudo parecia bem, mas internamente eu não me sentia feliz.
Cobrei de mim mesma um acerto de contas... Eu precisava me sentir feliz! Coloquei esse propósito na minha vida, tentei salvar meu casamento, mas desejava alguém que caminhasse comigo, que compartilhasse os mesmos sonhos... Quando cobrei de mim mesma a felicidade as mudanças ocorreram na minha vida...
Decidi me separar e aí foi difícil lhe dar com a culpa, com o medo e a insegurança, mas sabia que minha vida precisava tomar outro rumo. Enquanto todos me diziam: Você é louca! Meu coração me dizia: Vá adiante!
Como chorei... como aprendi... minha separação foi uma das maiores lições que recebi, foi um grande aprendizado.
Não sabia explicar às pessoas que sempre nos viram como um casal “feliz”, sem grandes problemas, em meio a risos e trocas de carícias, uma parceria "aparentemente" saudável, que aquilo não era felicidade. Ter que dar explicações de algo tão íntimo, sentido e percebido só por mim... era impossível... e me dei conta de outra questão: Porquê dar explicações?
Senti-me culpada algumas vezes por estar me sentindo leve e feliz com minha decisão... pois todos que me amavam não compreendiam o que eu estava fazendo e eu causava sofrimento com minha decisão. Senti-me insegura pois, o que fazer depois disso... a vida que eu havia construído, laços afetivos, familiares, amigos em comum, negócios... A maioria das mulheres infelizes no casamento não se desprendem de seus relacionamentos por comodismo, culpa ou medo... Mas queridas, quando estamos alinhadas com o coração e com nosso propósito divino, somos sustentadas e amparadas por "Aquela Que Sabe".
Sempre desejei um parceiro que caminhasse comigo, que compreendesse o que eu falasse e que eu pudesse demonstrar fragilidade “sem cair a casa”. Só quando aprendi a me amar esse Homem apareceu! Quando passamos a re-conhecer nossas carências afetiva
s e assumir que as situações que nos rodeiam são criadas por nós mesmas, somos capazes de curar e ser curada.
Aprendi que quando você se propõe a ser fiel a si mesma, inevitavelmente irá desapontar o outro porque as pessoas projetam sua felicidade umas nas outras. Amar tem haver com liberdade e liberdade com felicidade. Desatei muitas amarras, quebrei padrões familiares, e passei a responder ao chamado que vinha de dentro, que ecoava do fundo do meu âmago...
Então, conheci um homem maravilhoso, que no primeiro encontro, ao sentir sua presença, ele ainda de costas, percebi que algo intenso estava chegando a mim. Desde que nos olhamos nos olhos não paramos mais de nos olhar... nossas conversas eram seguidas de toques, nossas mãos se procuravam, sua fala era muito familiar... o primeiro abraço à luz da lua e sob os olhares das estrelas foi algo que jamais vou esquecer... Envergonhada tive de perguntar: "você está sentindo o mesmo que eu?" e ele disse: "Sim". O sentimento que brotava de nossos peitos era algo muito antigo, uma saudade, uma vontade de não sair dali. E ali ficamos, apenas admirando o céu estrelado, de tantas possibilidades, acima de nós.

Neste dia tomei uma grande decisão: QUERO SER GUIADA PELO MEU CORAÇÃO. Este homem me apresentou o Xamanismo, me apontou o caminho e carinhosamente tem estado comigo como um mestre silencioso. Sim, ele assiste minhas quedas e me estende a mão caso eu não consiga levantar-me sozinha, deixa eu chorar em seu ombro e me abraça de uma maneira que diz: Estou aqui, tu não estás sozinha. E com seu jeito especial me mostra a beleza do amor... Deixa eu ser forte quando preciso e deixa eu ser frágil quando necessito. Muitas vezes foi ele quem me lembrou da minha condição feminina.
Me separei, da minha primeira união conjugal, no início de janeiro de 2006 porque havia identificado que eu era uma das muitas mulheres que, sem saber, dormem com o pai. Desde 2006 compartilho minha vida com o Rafael, este homem encantador de quem já falei, mas foi só em 2009 que consegui, de fato, re-significar o abandono do pai, que senti provavelmente ainda no útero de minha mãe e algumas vezes na infância, quando meu pai tinha de viajar ou ficar longe, por que sua carreira exigia isso.
Foi só neste mesmo ano que identifiquei as coisas que não fluiam na minha vida por eu ter feito escolhas profissionais que não eram as que meu pai havia sonhado para mim.... E que eu ainda me culpava por não ter sido a "menina boazinha" que meus pais projetaram, embora, ainda inconscientemente, tentasse ser, me auto-sabotando muitas vezes.
Ter sido audaciosa e determinada, firme em minhas escolhas e nos "meus" propósitos, fez com que eu identificasse os vínculos tóxicos que mantinha com os homens e mulheres e transformasse-os em vínculos sadios.
Hoje, sei que meu relacionamento atual, minhas escolhas e meu modo de vida servem de exemplo para meus pais e refletem no relacionamento dos dois. Tornei-me mais segura, fiel a "mim" e sincera aos meus sentimentos. Consigo reconhecer as virtudes que meu pai me passou, agradecer por elas, mas também reconheço as limitações, que aos poucos venho vencendo, porque não desisto de mim. De forma alguma vejo meu pai como mal-feitor, pois sempre se esforçou para me dar o melhor que podia. Costumo dizer que os pais erram tentando acertar!
E foi buscando a mim mesma que conheci muitas pessoas maravilhosas no caminho, que refletiram e refletem algo de mim, coisas que me agradam e desagradam, que me levam a saber quem sou eu. Hoje posso ver o tamanho da minha luz e da minha sombra, sem me chocar com uma ou com outra.


Não posso deixar de agradecer ao homem maravilhoso que compartilha seus dias e suas noites comigo e dedicar este texto ao Sagrado Masculino e Feminino que habita todas as mulheres e homens, em especial àqueles que fazem do meu caminho um jardim de gira-sóis. Mas nada destas transformações ocorreriam se eu não tivesse conhecido o trabalho dos Círculos Femininos; se eu não tivesse me atirado no abismo e me permitido alçar vôos que eu nem imaginava um dia fazer; se eu não tivesse dançado a vida (biodanza), amado a mim mesma e conhecido a UNIPAZ-SUL.

Bem vindo 2010, não espero nada de ti, apenas te recebo em Paz!
Ana Paula Andrade

2 comentários:

ADRIANA sALERNO disse...

Que surpresa linda para mim, após a noite de ontem, que fui para nada pedir e saí transbordando mais que já me julgava transbordar...
Meu momento é muito parecido com este que descreves... 15 anos dormindo com a figura de meu pai ausente por tanto anos, nem sei se cheguei a conhecê-lo, apesar da aparente presença...
Eu só posso te agradecer por tu viveres a partir do teu coração, porque assim posso me espelhar e perceber que não sou ingrata por também me sentir livre e leve, por me alegrar e dançar por nada... somente por estar comigo, não mais eclipsada pela sombra do meu pai...
A cura não está completa, mas o caminho já se mostra a minha frente...
Agradeço todos os dias pela oportunidade que recebi de conhecê-las...
Obrigada, obrigada, obrigada!!!!
Adriana Salerno

Rachel disse...

Que história!
Passei por uma situação absurdamente semelhante!, envolvendo a questão paternal e essa projeção em parceiro.
A vida, uma hora ou outra, nos lança numa jornada sem volta, de limpeza espiritual mesmo. Aposto que são muitas as mulheres que passam por esse processo, sofrem sem o entendimento de terceiros, e até mesmo sem SE entender. É incrível, mas algo nos guia, e a maré baixa a ponto de enxergarmos toda a beleza que existe em nossa vida, existência, nesse inexplicável Sagrado.

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