8 de mai de 2011

Dedicado à mãe que existe em cada mulher no mundo


de Lari Ahmyo*


06/05/11


Aceito o fluxo. A imensidão de meu ser navega em pétalas de divinas flores, que brotam no sempre. É o contorno delas. Onde a linha se faz perceber, é sempre o encontro da luz e da escuridão. Sou o entre. Porque sou mulher. Sou o contorno dessas linhas, sou o contorno de todas as formas. Somente a escuridão nos faz perceber a luz. Sou grata. Apanhei num ramo de sol um abraço. Foi quando ele atravessou a nuvem que vi a certeza de seu raio. O universo brinca de cores, e tudo isso não seria nada se não existisse a escuridão que agora me cala. A matéria existe porque a escuridão limita a luz. Ou estaríamos cegos. Nosso mundo é brincadeira do divino, para que a luz possa sair dela própria e se perceber de fora... “Oooolha... sou luz!” Diz o anjo olhando para o sol. Sem nem sempre saber estar diante de um espelho. O maior da nossa galáxia. E nós, anjos da Terra, somos o corpo de luz refletido pelo nosso astro.


Não estremeço, mas tudo é um só choro. À espera de meu sangue, tudo é água que lhe abre caminho. Meu ser chora de viver, chora de tristeza e alegria, chora de se compreender. Lágrima de mim é pura pulsação, sou gota de orvalho na flor. Estremeço a qualquer murmúrio de sua cor. Hoje sou assim: essa lágrima. E sou também a maciez da pétala que a ampara e lhe permite ainda os contornos de uma única gota...


Ah, pequena lágrima. Aprendestes com a nossa mãe. Como ela, tens forma e és pequena aos olhos de quem te olha, vulnerável. Mas és sempre ainda grande mar. Como nossa mãe. Essa mãe que nos acolhe, que aceita que possamos ainda acreditar estarmos apartados dela. Quando tudo vem de seu centro e apenas joga o jogo de se separar, ela sorri e sente cócegas, de seus filhos que passeiam por seu corpo-terra. Mãe Terra, que nos sustenta. Sorrio também ao saber que nossos passos confusos e brincalhões ainda a fazem rir. És bela e leve, e na suavidade reside tua imponência. Haverá no mundo um exemplo maior de humildade do que o teu? Teu colo é disponível ao filho que te sente, mesmo àquele que em arrogância julgou-se superior a ti...


Mãe Terra, generosa. Tua voz fala a teus filhos. Está no correr dos rios, está no sussurrar do mar. Coragem de quem te sente e te percebe por quanto és. Abundância suprema. Se honrássemos teu nome com o que mereces, não haveria em teus filhos nada que não fosse confiança plena.


Em mim, em ti, no laço que nos une está o pai. Sopro criador que em mim um dia dançou ciranda. Que linda dança a criação criou para gerar a vida. Recebe no teu corpo somente quem é digno, mãe. Honra teu nome e teu poder. Honra o que em ti é capaz de criar, honra os filhos que teu corpo gerou. Teu corpo é sagrado, mãe. És mulher, divina. Navegas águas jamais navegadas pelos homens, jamais conhecidas. Que outro ser haveria de receber o privilégio de conceber a criação em seu próprio ventre? A que outro ser poderia ser concedida a possibilidade de gerar, criar, nutrir, fazer crescer em doação e amor?


Vida e morte se entrelaçam, se completam no que em mim é vida. Qual é o oposto da morte, perguntaram. E aos que responderam vida nos foi dito: nascimento. Porque a vida é eterna...


Hoje, minhas lágrimas choraram morte e nascimento, e eram vida. Lágrimas alegres de viver... como vocês são bem vindas! Lágrimas de sorrir e de sofrer. Iguais, a mesma água. Em mim passeiam generosas e abundantes, como mulher que sabe ser fonte e não se reprime. Respeita minhas águas. Confia. Sou eu. Elas têm seu ritmo, seu tempo, sua linguagem. Elas são o que de mim pulsa de mais puro e verdadeiro, como só a água sabe ser. Enquanto houver o que limpar nos rios de minha mãe, enquanto os vulcões cuspirem fumaça como quem engasga, enquanto nosso solo envenenado suportar o alimento que não alimenta... Minha lágrima correrá. Porque sou feita à sua imagem e semelhança, mãe, porque enquanto você não se limpar eu também não vou me limpar, e quando teu corpo-terra me quiser mais pura, eu também me purificarei para te renovar.


Comigo falaram a linguagem dos céus. Quando tudo era nuvem, um rasgo de brilho se abriu na desesperança cinza, desenhando uma vulva. A imagem ouviu minha pergunta: tempo de me permitir um filho? A resposta veio do próprio pai, que iluminou meu rosto pela mesma brecha. Tempo de plantar um sonho em terreno fértil. Honrar pai e mãe no instrumento que há em mim. Meu corpo perfeito, potencial gerador. Terra adorada, espelho do que em mim sonha nutrir, crescer...


Talvez, o sonho do espelho seja ainda fruto em tudo o que a mim se manifesta. Esperança menina, esquecestes de mencionar que tua saia ainda dança, e que a propósito, sempre tivestes mesmo uma preferência por uma saia BEM RODADA. Ah, roda do infinito, que seria de ti sem as pétalas de tuas flores? A partir do centro, teu desenho cresce em múltiplas direções. Acordei no meu sentir o desejo que crescestes em mim, e agora tenho a sabedoria dos abismos.


O que você vê, quando fecha os olhos? Eu vejo vórtices que giram ao infinito, escadas que sobem a lugares desconhecidos, paisagens de sonho, unicórnios que voam e um anjo vermelho na caverna de meu útero, soando trompas. É assim, a cada vez. Nenhum outro veículo me levaria a paisagens assim tão insondadas. Quando outra mão guia a entrada no mistério, nossa imaginação assume a forma de uma carruagem de prata.


Gratidão pelo que em mim me permite crescer. Pelo que em mim reconhece o "a cada dia" do aprender a ser eu mesma e a ser mulher. Descomplicar o simples. Porque o mais importante ficou de lado? Recuperar o sagrado em mim é abrir espaço ao meu sangue, conceder-lhe o silêncio que lhe é próprio, ouvir histórias de suas vozes e expandir o peito para receber as bênçãos. Assim, conciliando os movimentos de nossas águas, aprendemos a girar com a lua e a renascer sorridentes. Possível só quando o silêncio da morte for honrado em sua sabedoria. Céu escuro e noite nos ensinam. Ao mesmo tempo em que as estrelas não nos deixam esquecer que nunca estamos sozinhas.


Obrigada, mãe. Tua generosidade assombra o que em mim ainda é mistério, mas mais ainda o que já é consciência e contemplação. Meu sorrir vem de ser sol depois de cantar para a lua, de irradiar brilho de prata e ouro em qualquer direção. Ah, sim, que reconhecer minha radiância é o passo mais importante para poder dormir no teu seio, para contemplar de perto a acolhida de teu colo, a paz de teu ventre. Que abraçando-te, mãe, eu possa sempre voltar lá pra dentro. Lembrando ser tua criança. Bênção de crescer, de não saber, de não lembrar. Para ser também filha.


Doce surpresa, o universo reserva para nós. Renascer, de nossas próprias mães, que também são filhas dessa Mãe maior... Sermos filhas de quem um dia fomos mães. Descobrir-nos mães sob o olhar de quem nos pôs no mundo e nos pegou nos braços.


Mãe, mãezinha... Quando vou te ninar de novo? Quero ser tua menina, mas também tua mãe. No infinito que é a mulher, podemos ser tudo isso. E a mesma lágrima que veio me abraçar correndo, fui eu, quando me recebestes infinita no teu ventre. Sou eu no momento em que me descubro filha querendo ser mãe de novo.


É isso o que nossos ciclos nos ensinam? Morrer e renascer a cada lua, brincando de percorrer em nós as estações? Meus invernos e primaveras atravessam meus outonos e verões. Entre folhas e flores, exposta ao sol ou ao frio, sou ainda mulher e menina, sou mãe e filha, claro e escuro, e sou sempre a mesma água que atravessa toda a criação. De que imensidão nos fala o nosso fluxo, quantas bênçãos se escondem em minha menstruação? Vermelho de vida e intensidade, cor que ousou ser sangue, mulher.


Me deslumbro. Me entrego. Me abraço. Ser montanha, quanta vastidão! De seu impassível lugar, vi em mim a dança do pequeno eu. Não chorei. Enquanto ele esperneava, eu observava imensa, com a compaixão de quem cresce o filho que ainda não quer aprender, sem impor-lhe uma sabedoria. Porque mãe que é mãe sabe que essa escola é a vida.


Encanto, escrevo... Meu sangue esperou que esse outro fluxo corresse de mim. Insistiu em não descer, paciente de encontros. Talvez se sinta novamente seguro quando estivermos reunidas na intimidade de um círculo. Dessa vez, com as bênçãos de nossas mães.


A gratidão pelo meu sangue, pelo meu fluxo, torna-se então gratidão por toda vida gerada por todo ventre. Sou grata, minha mãe. Pois com o meu sangue, experimento um pedacinho do amor com que você me fez. Até o dia em que meu ventre escolher repetir em mim a alegria de meu nascimento, presenteando-me novamente com a vida que você me deu.


Sem esperar ser mãe para fazê-lo, ofereço meu útero e meu sangue em nome de todas as mulheres que são mães no mundo. Que são mães DO mundo. Meu coração, da mesma cor, habita mais embaixo agora. Ali, onde a vida sempre pulsou. Hoje, mãe, e sempre, ele é todo seu.

(Larissa Lamas Pucci)

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