7 de jun. de 2014

Me perdoa

Me perdoa, se com minhas feridas eu machuquei as tuas.
Me perdoa se com meus limites eu relembrei os limites dos teus pais.
Me perdoa si com minhas reações te levei a dureza e a se aprisionar novamente.
Me perdoa por te amar como humanamente me amaram como humanamente se ama.
Eu te perdoo por me levar até minhas feridas.
Eu te perdoo por me levar aos meus limites que muitas vezes são os limites dos meus pais.
Eu te perdoo por me levar até a dureza e ao aprisionamento.
Eu agradeço tua presença em minha vida, me ajuda a descobrir quem sou efetivamente.
Eu te amo porque te amo, como aprendi a amar, como humanamente me sai, como humanamente posso, como vou aprendendo.
E sei que por te amar, uma e outra vez, deixarei que me leves as minhas feridas, as minhas prisões, as minhas fúrias, ao meu desespero, a minha solidão, a minha dor, e que por me amar me deixarás te levar até as tuas.

E sei que por nos amarmos nos levaremos também a esse lugar onde o amor se torna entrega, fusão, silencio, unidade. E nesse ciclo perfeito de dor, amor, alegria e criatividade que nos ensina a vida, aprenderemos a manifestar o Amor que és, o Amor que sou e o Amor que somos quando estamos juntos. 

Carina Tacconi


11 de mai. de 2014

Em cada menina que a terra criou um carinho de mãe Maria deixou... Um sonho de mãe Maria plantou para o mundo a paz encontrar....


O mar serenou quando ela pisou na areia...

E um dia fui beijada pela Mãe e Ela cresceu dentro de mim...


"Que o Ser em cada um de nós que é o "ninguém", ou seja, 'el alma pura', sempre nos lembre que, não importa o que aconteça, temos uma Mãe amorosa, mansa e feroz, que espera que aprendamos, que nos comprometamos a ser mansamente ferozes, ferozmente mansos... como ela.
Que nós, que puxamos e içamos todos os dias, relaxemos um pouco, e nos lembremos, com o coração voltado para nosso lar, de que é nossa Mãe, o mais belo Sino jamais forjado, que nós, pequenas cordas, lutamos para badalar... para que a memória de sua voz melodiosa ressoe por nosso corpo, nossa mente, nosso espírito, nossa alma, nossas obras e nossas terras, diariamente." (trecho do livro - Libertem a Mulher Forte).

A ti Sarah Emanuelle, minha filha, estrelinha do mar de Mamãe... gratidão por me fazer nascer Mãe!!!




9 de mai. de 2014

A Velha Mãe...

Aproxima-se o dia das mães e me toca o coração homenagear essa Avó guarani, mãe de oito filhos – cinco mulheres e três homens – uma prole de mais de 40 netos, mais de 30 bisnetos e já alguns tataranetos... Vovó Rosa - mulher semeadora - de trás da fumaça de seu cachimbo (petyngua) vem ela semeando um caminho de flores... gratidão minha avó!!



Poty-Dja (Vovó Rosa) 
 Liderança Feminina da Aldeia Yynn Moroti, município de Biguaçu, Santa Catarina
Esposa do pajé Wherá Tupã (vovô Alcindo).



«Convertirse en anciana tiene que ver con el desarrollo interior, y no con la apariencia externa. Una anciana es una mujer que posee sabiduría, compasión, humor, valentía y vitalidad. Es consciente de ser verdaderamente ella misma, sabe expresar lo que sabe y lo que siente, yemprender una acción determinada cuando es necesario. No aparta los ojos de la realidad, ni permite que se le nuble la mente. Puede ver los defectos y las imperfecciones en ella misma y en los demás, pero la luz con la que los ve no es severa ni enjuiciatoria. Ha aprendido a confiar en sí misma hasta saber lo que ya sabe.»
~Jean Shinoda Bolen.~

Meu nome é MULHER



Meu nome é Mulher e encontro a minha morada na liberdade
Não sei ser presa mas aprendi a me deixar ser a caça quando necessário e a caçadora quando o cheiro encanta o meu faro
Se enjaulada mostro-me pela metade e a minha busca é ser inteira 
Inteira com meus erros, acertos e vontades.
Com meu faro, com meu sexo, com minha ousadia. 
Busco-me na solidão e encontro-me no meu silêncio. Aventuro-me em minha matilha e encontro o meu esconderijo nos aposentos da minha alma.
Nesses aposentos, reside a "velha que sabe" que me esina ao sussurrar de cada melodia. Me traz a força na hora da fraqueza e me mostra que o tempo de menina boazinha já não é mais meu tempo.
Sou um pouco de Eva e tenho os trejeitos de Lilith. Sou menina-mulher, sombra e luz, medo e coragem.
Sou a dona de mim,carregada de emoções e ciclica por natureza.
Me pergunte por aonde eu ando e te responderei que não tenho caminho para caminhar, deixo o meu extinto me levar.
Fiz do hoje o meu único dia. 
Danço e bailo quando o medo apresenta-se em meu castelo, ao abri a porta lhe dou as boas - vindas, convido para entrar e aprendo com ele a conhecer todo o palácio.
Hoje sei quem eu sou! Amanhã? Eu me reivento.
Borboleta por natureza, sou adepta à transformações. 
Minha alma tem sede de liberdade e ousadia.
Aprendi a não me deixar vencer pelo cansaço e sim encontrar nele o impulso necessário para as minhas vontades.
Mergulho em minhas profundezas e coloquei a palavra Intensidade em meu sobrenome. Não breco ate conhecer, e ao conhecer me permito vivenciar as dores e as delicias do SER
Sou assim Fêmea, filha da Mãe, filha da Terra;
Me Buscando, Me Perdendo, Me ENCONTRANDO!!


Carol Shanti

8 de mai. de 2014

Segunda Vermelha 2014 em Florianópolis/SC

Este ano (2014) estarei celebrando a SEGUNDA VERMELHA na ilha de Florianópolis/SC dia 12 de maio. Meu convite é para todas as mulheres que queiram celebrar seu Tempo de Lua, sua Menstruação.

A data de tradição da Campanha é sempre na primeira segunda-feira do mês de maio, mas como dia 05/05/14 eu estava em trânsito retornando para o estado de SC, vou quebrar o protocolo e festejar mais uma vez, hehehe.

Nos reuniremos na Pousada Rio Vermelho, na Praia do Moçambique, dia 12/05 ás 19h40min.
Compareça de saia, roupa ou acessórios na cor vermelha (unhas e batom está valendo rsrsrs) e traga 1 almofada para seu conforto.

Trazer um lanche para compartilhar, chá ou suco de uva integral.
Contribuição espontânea: R$ 5,00
(Atividade aberta ao público masculino)

Local: Rod. João Gualberto Soares, 8479
Praia do Moçambique
(ônibus Rio Vermelho passa na frente da pousada, descer no supermercado Thaysi)



Movimento defende aceitação da natureza feminina e orgulho de ser mulher
Por ROBERTA STRUZANI

Na primeira segunda-feira do mês de maio (05/05/14) é celebrado por milhões de mulheres de todo o mundo o "Menstrual Monday" (conhecido no Brasil como "Segunda Vermelha"). A campanha - que completa 14 anos em 2014 - tem por objetivo reforçar o orgulho de ser mulher e desmistificar a natureza do corpo feminino, como o ato de menstruar. O movimento, idealizado por Genebra Kachaman e Molly Strange, vem a cada ano ganhando mais adeptos, levando a uma nova consciência.

No começo, o principal objetivo da "Segunda Vermelha" era conscientizar as mulheres sobre os malefícios dos absorventes internos, cujo uso frequente pode dar origem a doenças ginecológicas e infecções, sem contar a incidência de câncer de útero. A campanha propagava, por exemplo, o uso de coletores menstruais - objetos reutilizáveis feitos de silicone e sem toxinas, que coletam o sangue menstrual, sem afetar a saúde ou o meio ambiente. Mas a campanha foi tão bem aceita e valorizada que tomou novos rumos e passou a pregar a defesa da natureza feminina, o orgulho em menstruar e a aceitação danatureza do ciclo da mulher.

Geralmente, as mulheres que participam do movimento coletam seu sangue menstrual e fazem desenhos com o material. Também são expostas fotografias artísticas com mulheres mostrando seus corpos manchados de sangue da menstruação. Essas "artes" podem ser divulgadas em mídias sociais, estampadas em cadernos e diários comercializados ou apresentadas em exposições feitas pelas participantes. A ideia é realizar atividades que manifestem a honra de menstruar e ser mulher, deixando de lado a vergonha em mostrar o sangue que vem do nosso corpo saudável feminino.

Mas vale reforçar que apesar da "Segunda Vermelha" defender o orgulho feminino, ela não pretende excluir o homem, mas sim trazer essa consciência a todos, principalmente à ala masculina, para abraçarem essa causa junto conosco. A ideia é ajudá-los a entender melhor a natureza feminina, como os rompantes de humor da TPM ou os possíveis efeitos colaterais da pílula, por exemplo.

30 de abr. de 2014

A Segunda Vermelha se aproxima...

Olá mulherada maravilhosa!
SEGUNDA VERMELHA se aproxima... primeira segunda-feira do mês de maio, lembra?
Para quem não conhece a campanha acesse o link http://clafilhasdalua.blogspot.com.br/2013/04/segunda-vermelha.html
Vamos celebrar... aderir a Campanha, reverberar a idéia... é muito simples, vou dar algumas sugestões:

- Pinte as unhas de vermelho, invista na maquiagem...

- Dê uma festa para as amigas...

- Enfeite a casa com rosas vermelhas;

- Prepare a mesa com toalha ou velas vermelhas... Cozinhe alimentos vermelhos, enfeite o cardápio com pimentas, pimentões, morangos, cerejas, tomate, uvas, amoras, molho vermelho...

- Convide as amigas para um chá vermelho...

- Dê um toque vermelho na cama, no sofá, no banheiro...

- Arrisque-se vestindo uma lingerie "cor de carne", rsrsrs;


- Vá trabalhar de vermelho ou com algum acessório nessa cor;

- Prepare o ambiente para um momento a sós com você mesma (ou acompanhada, hehehe)

- Abra aquela garrafa de vinho que está guardada para uma ocasião especial, brinde seu sangue!



8 de abr. de 2014

Abrázate de tantas formas como puedas


Abrázate de tantas formas como puedas, con el cuerpo, con el alma, con la mente, con el corazón, con el agua, con la tierra, con el aire, con los encuentros, con las sonrisas, con las palabras, con los momentos bonitos, con el espacio fresco y cálido, con los colores, con los sabores, con los aromas, con los sonidos, con el disfrute, con el tiempo, en el tiempo, y a tu tiempo. Abrázate con carino, con amor, con respeto, con aceptación, con gratitud y suelta y respira y fluye y vive.

14 de fev. de 2014

Formação Geradora de Círculos Femininos


Chamado das Avós, inspirando mulheres


A Formação Geradora de Círculos Femininos é um chamado das “Avós” para inspirar outras mulheres a prática de gerar espaços de partilha, cura, liberação e empoderamento para a Mulher.

A Formação se estende em 5 módulos, encontros mensais de imersão junto a natureza, para que possamos nos aprofundar em questões do universo feminino e curar a partir de nossas próprias experiências.

A Formação fornece elementos de base para organizar, conduzir e zelar Círculos Femininos, oferecendo um estudo vivencial dentro de uma proposta de desenvolvimento pessoal, com enfoque transpessoal e uma abordagem holística.

Trabalharemos a percepção em diferentes níveis de relações, resgate da memória ancestral do princípio gerador para gerar AMOR, desenvolvimento da escuta sensível, Ciclos e Ritos de Passagem, Mistérios do Sangue, os 4 altares, a arte atemporal de participar de círculos, deusas/presenças arquetípicas na psique da mulher, Graal - o elixir vitae, considerações e sugestões de rituais e cerimônias; proteção, ancoramento e encerramento dos trabalhos, entre outros temas transversais que serão abordados.

O propósito da Formação é dar forma a ação de gerar círculos femininos, desejo este manifestado nos últimos tempos por muitas mulheres. Mulheres estas que conheceram e se nutriram (e ainda se nutrem) da energia salutar emanada de um Círculo de Mulheres. Mulheres que profundamente tocadas e empoderadas pelo Círculo, sentem o desejo no seu âmago de seguir espalhando esta semente, convidando outras mulheres ao desabrochar.



O intuito deste trabalho não é de forma alguma tornar-se guia, mestra, líder ou sacerdotisa de mulheres. Tão pouco constituir uma doutrina ou qualquer movimento que estabeleça rótulos ou crenças limitantes. Bem pelo contrário, é contribuir para a liberdade, autonomia e protagonismo da mulher, é gerar espaço de livre expressão, um lugar para nutrir-se de forma abundante de toda a capacidade geratriz própria do feminino. E a partir do centro, onde todas somos UMA, gerar integração, harmonia, força expressiva e criativa, afetividade, conexão, encontro e vínculo total com a vida.

A mulher encontra no círculo uma comunidade de apoio e se fortalece para assumir com fé a essência da sua humanidade. O papel da geradora é fazer o “chamado”, organizar a casa e zelar pelo encontro.

Oferecemos material de apoio e indicação de bibliografia, filmes, músicas.

Interessadas em participar da primeira edição da “Formação Geradora de Círculos Femininos” antecipem suas inscrições pois as vagas são limitadas (15 vagas).


A Roda de Cura para Mulheres é um trabalho guiado pelas ancestrais com o propósito de levar o Rezo do Feminino à diferentes Espaços Terapêuticos ou Centros Holísticos, que buscam abrir este canal e ancorar círculos femininos em tal local.

Interessadas (os) em levar este trabalho à algum Espaço, faça contato: clafilhasdalua@gmail.com

Uma história cotidiana de angústia, desencontro, amor e reencontro

Por Ligia Moreiras Sena

O celular tocou e eu atendi.
Fui empurrando o carrinho de compras em direção às gôndolas de meu interesse quando ouvi gritos muito nervosos de criança. Choro, misturado com grito, misturado com raiva, misturado com desespero. Todos pararam o que estavam fazendo em função dos gritos.
Tentei me concentrar no telefonema. Não consegui. Encerrei a conversa dizendo que ligava na sequência e fui atrás.
Eu sou daquele tipo de pessoa louca que, ouvindo gritos, vai atrás para ver se pode ajudar de alguma maneira. Não consigo passar por gritos como se nada fossem, como se ali não houvesse alguém sofrendo ou com problemas.
Fui.
Parei no corredor e consegui avistar, lá longe, muitos metros adiante, uma mãe e uma criança.
A criança, um menino aparentando entre 5 e 6 anos, estava sendo puxado pela mãe, que aparentemente falava em um celular, com rosto também aparentemente envergonhado pelo escândalo do filho. Ela no celular e o menino se esgoelando, gritando coisas como: "Para mãe, para mãe!". Ele gritava isso repetidamente e, por ver que não recebia resposta, entrou em um surto nervoso onde sequer se conseguia ouvir o que dizia. Era muito grito, muito choro, muito desespero. E ela, visivelmente consternada pelo escândalo, focava toda sua atenção no celular, como se aquela suposta conversa fosse capaz de tirá-la daquela situação.
Ela caminhava a passos muito rápidos, puxando o garoto pela mão, que ia sendo arrastado, gritando, olhando para trás, com o braço esticado, como se quisesse continuar no mercado. Não conseguindo puxá-lo sem arrastá-lo literalmente pelo chão, então deu duas bofetadas na cabeça dele, puxou-o pela orelha e pelo cabelo e aquilo e nada pareceu a mesma coisa: o guri continuava gritando, nervoso e desesperado. Deu dois fortes tapas e puxou sua orelha como se nada fosse, ainda ao telefone. Então simplesmente guardou o aparelho - e foi quando percebi que realmente não havia ligação nenhuma, era uma "fuga social", uma forma de fugir "socialmente" daquele momento desagradável -, puxou-o por uma das pernas e por um dos braços e foi carregando o filho assim. Que continuava a gritar.
O supermercado fica dentro de um shopping.
Eles já haviam saído do mercado e caminhavam pelo corredor do shopping.
Eu também.
Larguei meu carrinho e fui atrás, observando tudo.
Sinceramente? Temia pelo menino. Era visível que ela perderia o controle a qualquer momento e viria com tudo pra cima dele. Eu simplesmente não podia pensar em ir embora e saber aquele menino em risco. Fiquei lá. Enxerida? Bisbilhoteira? Vigia da moral e dos bons costumes? Não. Nada disso. Não sou nem um pouco moralista, nem acho que as pessoas devem se meter na vida dos outros. Exceto quando os outros estão correndo risco. Crianças, especialmente. Sim. Sou aquele tipo de pessoa "psicopata" (já fui chamada assim; aliás, já fui chamada de tantos nomes que, se eu contasse, poucos acreditariam...) que ao ver um marmanjo ou uma marmanja bater em criança faz questão de constrangê-lo. Porque violência contra criança, meu caro, minha cara, não dá. Violência contra criança, meu camarada, simplesmente não dá. Não é porque temos filhos que temos direito de agredi-los. E existem leis que protegem os menores. E uma de nossas funções enquanto cidadãos ativos e conscientes é, também, a de protegê-los. Então, realmente, não sou daquele tipo de cidadã que assiste a tudo de camarote com o dedo (e a língua) em riste para criticar, julgar e apontar, enquanto fica bem sentadinha em sua cadeira estofada sem fazer absolutamente nada. Ou enquanto há, atrás de si, um passado de descaso e/ou agressão com os próprios filhos, mas, ainda assim, sentindo-se apto a criticar o outro.
Então a mãe se dirigiu a uma loja, arrastando atrás o filho. Gritos e mais gritos. Bastante constrangida, mas ignorando-o sumariamente. Ela, então, procurou algo em uma prateleira, achou - o menino gritando -, colocou na cesta - o menino gritando -, e seguiu em frente.
Eu atrás. Pronta para interferir no primeiro golpe a ser desferido contra ele (não, primeiro não; segundo ou terceiro; ela já havia esbofeteado o garoto, quando eu ainda não havia decidido segui-los).
Então ela foi para a fila do caixa. Segurava pelo braço o menino, que estava atirado ao chão, vermelho de tanto gritar, as lágrimas correndo em rios.
Na fila, na frente deles, uma moça com três filhas maiores. Em função dos gritos, a mãe das três filhas se virou e deu de cara com a mãe do menino. Que, ao fitá-la... desabou a chorar...

Colocou a mão no rosto e teve a maior crise pública de choro que eu já havia presenciado...
Largou a mão do menino.
Ele gritava, ela chorava. Uma situação muito difícil. De dar pena mesmo.
Como os gritos do garoto pioravam a cada momento, a mãe das três filhas foi acudi-lo. E ficou lá a mãe do garoto. Chorando. Chorando muito. Sozinha.
Aí eu não aguentei mais e fui...

Enquanto a mãe das meninas acalmava e amparava o menino (dizendo coisas como: "Querido, olha pra mim, olha aqui pra mim. Você quer tomar um sorvete? Vamos, vamos levar a mamãe pra tomar um sorvete?"), eu fui até a mãe dele, coloquei um braço em volta de seus ombros e apenas disse: "Você quer tomar uma água, ou um suco? Vamos? A gente vai com vocês...".
Ela chorava muito... E simplesmente disse "Quero...". Quase sussurrando... Sem nem me olhar nos olhos. Virei-me para a moça das três filhas e disse: "Vamos todos?".
A mãe das meninas, então, pediu para a filha maior permanecer na fila do caixa, pagar e encontrá-la no café em frente. A mãe do menino deixou cair a cesta com a única coisa que havia separado. A mãe das meninas deu a mão ao pequeno. Eu segui em frente com a mãe dele e a pequena turma atrás. Todos da fila nos olhavam.
Então sentamos todos em uma mesa. A mãe das meninas pediu uma água, um sorvete para o pequeno e dedicou-se exclusivamente a ele.
A crise de choro havia cessado, mas os soluços ainda persistiam.
Um silêncio constrangedor de nossa parte - mãe dele e eu.
E foi quando ouvimos a mãe das três filhas dizendo:
"Mas por que você estava chorando tanto? Você quer me contar?"
Ao que ele respondeu, entre soluços:
- "Meu Hot Wheels caiu lá no mercado..."
- "E você quer tentar procurá-lo?"
- "Quero...".
Então a moça das três filhas se virou para a mãe dele e disse:
- "Ele trouxe um Hot Wheels?"
- "Sim, trouxe..." - sussurrou a mãe, com uma expressão que nem sei definir... - "Mas eu não sabia que tinha caído..."
- "Tudo bem por você se eu for com ele até lá, tentar achar? Minhas filhas ficam aqui, com vocês". - disse a mãe das três filhas, dando a entender que "Ei, confie em mim. Estou confiando em você".
- "Tudo bem... Pode ir sim".
E lá se foi a mãe das três filhas com o filho da outra mãe.
Eles se foram e ficamos nós.
Então perguntei a ela se queria conversar. Disse que tinha visto tudo, todo o choro, todos os gritos e que vi o quanto ela estava se sentindo envergonhada, mas que não tinha motivo nenhum pra se envergonhar, porque todo mundo que tem filho consegue, pelo menos um pouco, entender. E que quem não entende e prefere julgar, na verdade, não faz a menor ideia do que é criar uma criança.
Ela, então, voltou ao choro profundo.
E, entre um suspiro e outro, tentou me dizer o que sentia.
Disse que havia se separado recentemente. E que estava muito difícil para ela. Que ela simplesmente não estava conseguindo lidar com o filho que, obviamente, também estava sentindo. Mas ela não sabia o que fazer... Que estava se sentindo muito sozinha. E que embora morasse no mesmo terreno que mãe, irmão e outros familiares, estava muito sozinha.
Chorava muito...
Eu? Bom... Eu já estava chorando junto fazia tempo...
Claro que consegui me colocar no lugar dela. Acho que toda mulher consegue se colocar nesse lugar: sentir-se só. Ver-se só. Sentir-se em profunda dificuldade e não poder transparecer, e ter que segurar a onda, fazer sacrifícios emocionais com medo de que respingue num filho, numa filha...
Eu só conseguia ouvi-la, e segurar na sua mão, e colocar mais água no copo.
Por fim, disse a única coisa que senti que podia dizer:
- "Olha, entendo como você se sente. De verdade mesmo. Porque criar um filho ou uma filha parece, mesmo, em muitos momentos, algo muito solitário, embora estejamos cercados por pessoas. Mas acho que todo mundo se sente assim. Todo mundo pode passar por isso, muita gente passa por isso, muita gente mesmo. Tem muita gente que deixa de passar por isso não porque queira, mas porque tem medo de enfrentar o desconhecido. E ninguém tem uma fórmula mágica. Ninguém. Não vou te dizer filosofias não. A realidade, muitas vezes, não deixa brechas para filosofia. Mas tem uma coisa que pode te ajudar: isso que acabou de acontecer. Você viu por que ele estava gritando?"
- "Pois é... Pelo Hot Wheels. Mas eu não sabia que tinha caído... Pra tu vê..."
- "Vocês não se falaram. Não se comunicaram. Um não olhou no olho do outro e disse o que precisava dizer. Foi só isso. Então, olha, eu não sei o que te dizer nessa situação além disso: tentem se ouvir mais. Se são só vocês dois na maioria do tempo, agora, vocês precisam se ouvir. Precisam ser confidentes. Um precisa ouvir o outro. Ele só gritou assim o tempo todo porque não conseguiu sua atenção...Eu sei que está difícil pra você, mas pra ele também está. E ele apanhou. Não bata, mesmo que esteja no seu limite, não bata... ".
Eu entendia que ela não havia dado atenção porque, puxa... Estava sofrendo muito também... Mas não dar atenção ao filho não a aliviou do sofrimento nem resolveu sua angústia, pelo contrário: só piorou tudo.
Ela ficou ali pensando, assoando o nariz e, então, chegou a mãe das três filhas com o garoto. Ele com o carrinho na mão... Rosto inchado de chorar. Lábios comprimidos de criança que acaba de achar algo do qual gosta muito.
Ele, então, sentou na cadeira e ficou mexendo no carrinho, cabeça baixa.
Olhei para aquela mãe das três filhas. Cruzamos nossos olhares mas não conseguimos dizer nada. Ela, apenas, colocou as duas mãos sobre o peito... como se pudesse também sentir aquela dor.
Claro que podia.
Todas nós podíamos.
Tanta dor naquele curto episódio...
Por pura humanidade, no sentido de "ser humano".
Por pura falta de comunicação.
Por pura falta de confiança, mãe no filho, filho na mãe. Falta de confiança no fato de que, sim! Podiam confiar um no outro! Podiam contar um com o outro! Eles dois eram, agora, todo o seu núcleo familiar, sem mais ninguém, precisavam ter total confiança um no outro.

Depois que o menino chegou com seu carrinho, ficou um clima estranho.
E a mim só me restou dizer: "Querido, senta aqui do ladinho da mamãe. Você já está melhor, a mamãe também. Já está tudo bem".
Ele logo sentou e perguntou se ela queria sorvete, e ela disse que sim.
Então dei um abraço muito forte nela (e ela em mim, o que também me fez muito, muito bem...). Perguntei se podia dar um beijo nele e ele deixou. Beijei-o.
A moça das três filhas disse que ficaria mais um pouco (a caçula estava comendo algo). Despedi-me dela e, em seu ouvido, disse: "Obrigada". E ela apenas me respondeu: "Obrigada".

Saí dali e fui caminhando, muito lentamente, de volta ao supermercado.
Meu carrinho ainda estava no mesmo lugar.
Nem quis pegar o que faltava. Fui ao caixa, paguei e fui embora.
Coloquei as coisas no porta malas, sentei, fechei a porta e... chorei um tanto.
Chorei por tudo. E chorei por nada.
Pela vida ser confusa. Pela vida ser simples. Pela comunicação ser difícil. Por tanta coisa ser demasiadamente fácil. E difícil ao mesmo tempo. Por estarmos tão cheios de amigos. Por estarmos tão sozinhos. Por pensar na dor dela. Que também podia ser a minha. Por pensar naquele menino gritando, apenas, somente, por seu carrinho. Por pensar na minha filha... Por pensar que quero poupá-la de toda dor do mundo. Por saber que eis aí uma missão fadada ao fracasso...

Decidi contar essa história aqui por dois motivos.
Primeiro: muitas vezes vemos uma mãe ou um pai enlouquecidos frente a uma criança, atacando-a violentamente, e temos ímpeto de atacá-los (aos pais) também. É natural. Não dá pra ver a imensa injustiça da violência contra um ser indefeso que é a criança sem nos abalarmos. E nada, nada justifica a violência contra a criança. Mas é preciso lembrar que, embora ali seja a criança quem precisa da mais emergencial ajuda, não é somente ela... O adulto também precisa. O imenso problema é: nem todos querem ser ajudados. Aliás, muito poucos querem. Muito poucos conseguem ver que os problemas sérios da vida cotidiana os tiram do prumo e que é o lado mais fraco da corda quem sofre mais. E aqueles que não querem... Oras... Passam, muitas vezes, uma vida fugindo disso. Enquanto perpetuam seu ciclo de agressão.
O segundo motivo é: em um momento de dificuldade com seu filho ou filha, de gritos, choro, crise, pare. Pare tudo o que estiver fazendo. Abaixe-se até ficar na altura de seus olhos. Segure-o pelos bracinhos e diga: "O que foi? O que aconteceu? Me diga: o que eu posso fazer pra te ajudar?". A resposta pode tanto ser um angústia facilmente solucionável quanto algo inalcançável. Mas o importante não é se conseguimos ou não fazer o que a criança quer, mas que estamos ali para ouvi-los, que eles nos olharam nos olhos e nós nos deles. Que foi estabelecido um contato importante, um vínculo de confiança, um "ouvir". E todo mundo quer ser ouvido... Ninguém quer ser ignorado em suas angústias.

Se você puder resolver facilmente, resolva.
Se não puder resolver, explique porquê não pode.
Se a crise continuar, continue a ouvi-lo, a perguntar, a dar atenção.
Pare o que está fazendo, pare de caminhar, desligue o telefone, pare de digitar e diga: "Estou aqui. Estou com você. Me dá um abraço".
Às vezes, eles nem conseguem o que querem, mas sentem-se tão amparados e protegidos que deixam-se abraçar e se acalmam. E todo mundo tem mais condição de ouvir e entender quando está calmo...

Isso que vivi ontem, por tabela, por meio de outras pessoas, mexeu muito comigo. Fui dormir agarrada na minha filha, pensando neles. Em como será que estariam naquele momento.
Torcendo para que estivesse tudo bem.
E para que, talvez, um estivesse encontrando apoio no colo do outro.
Porque é, também para isso, que mães/pais e filhos vêm juntos em uma mesma caminhada.


4 de jan. de 2014

O PODER CURADOR DA MENSTRUAÇÃO


A pesquisa médica moderna do Poder Curador da Menstruação está agora a provar o que culturas antigas sabem há milhares de anos: o sangue menstrual tem propriedades curativas incríveis - incluindo o poder de regenerar partes danificadas do nosso corpo, o que anteriormente era considerado impossível.
Em animais, as células estaminais derivadas do sangue menstrual já provaram ser extremamente bem-sucedidas na remoção de artérias bloqueadas, mesmo em circunstâncias extremas, que poderiam resultar na perda de um membro. Isto é devido à capacidade poderosa que as células estaminais do sangue menstrual têm para produzir novos vasos sanguíneos, tal como o fazem todos os meses nas mulheres que menstruam, na preparação para uma possível gravidez. A cada mês novos vasos sanguíneos são formados no endométrio, e, subsequentemente, são descartados durante menstruação. A implicação mais surpreendente da pesquisa é a de que o número de células menstruais estaminais libertado por uma única mulher num ciclo menstrual tem o potencial de ser usado para curar milhares de pessoas. Entrámos numa nova era da medicina. A actual investigação médica é apenas a ponta do iceberg.
A instituição médica não consegue abarcar toda a história, não une os pontos que ligam a pesquisa moderna com a longa história das religiões do útero e o conhecimento antigo dos poderes de regeneração contidos dentro do útero feminino. Este poder biológico do útero é conhecido, desde tempos imemoriais, como a Fonte da Vida, ou a Fonte da Juventude. Agora que começamos a lembrar esses poderes antigos, esperamos que ajudem a restaurar a verdadeira honra e respeito que o útero e o feminino merecem.

In Goddess of Sacred Sex Traduzido e adaptado por IC

A LINHA MATRILINEAR



"Antes de sermos concebidos, existíamos em parte como um ovo no ovário da nossa mãe. Todos os ovos que uma mulher vai ter formam-se enquanto ela é um feto de quatro meses de idade no ventre de sua mãe. Isto significa que a nossa vida celular como um ovo começa no ventre de nossa avó. Cada um de nós passou cinco meses no ventre de nossa avó e ela, por sua vez, dentro do ventre de sua avó. Nós vibramos com os ritmos de sangue da nossa mãe antes de ela própria ter nascido. E este ritmo é o fio de sangue que corre desde lá detrás desde as avós da primeira mãe. Nós todos compartilhamos o sangue da primeira mãe - somos verdadeiramente crianças de um só sangue. Os homens não podem transmitir esta continuidade de energia celular para seu esperma. O pai não passa a marca de uma vida, mas apenas a energia fugaz de poucas semanas. A natureza do homem é, em muitas formas metafóricas, uma rápida ascensão e queda - o desaparecimento e ressuscitar de energia reflectida em tantos dos antigos deuses masculinos." 


~When The Drummers Were Women de Layne Redmond~ *In Mulheres e Deusas Blogue

15 de dez. de 2013

Método de ovulação de Billings (MOB)

Muco cervical típico do período ovulatório 
Muco cervical típico do período ovulatório

O método de ovulação de Billings, ou MOB, é uma maneira comportamental e natural de prevenir a gravidez, já que se baseia em evitar relações sexuais em determinados períodos de cada ciclo menstrual, de acordo com a análise do muco cervical feminino; sem a utilização de métodos de barreira ou hormonais e, tampouco, intervenções cirúrgicas.
É um método bastante incentivado por grupos religiosos, principalmente por católicos, e tem a vantagem de ser simples, sem ônus e também a de permitir que a mulher conheça melhor o funcionamento do seu corpo. Além disso, pode ser aplicado pelos casais no momento em que acharem oportuno ter filhos, e incentiva o diálogo e respeito, uma vez que o ato de conceber ou não dependerá do consenso e conduta dos dois.

A mulher tem sensações diferentes nas fases do ciclo menstrual, devendo ficar atenta a estes sinais. Logo após a menstruação, não há formação de muco na vagina. Entretanto, ele vai surgindo no decorrer dos dias. Primeiramente, em pouca quantidade e, depois, em maior quantidade e também mais espesso. Esses são os períodos próximos à ovulação: fase mais fértil do ciclo menstrual, que ocorre na metade desse período.

Quando este evento ocorre, ela tem uma sensação de umidade na região vaginal e o muco apresenta aspecto e consistência de clara de ovo. Ele tem a função de nutrir, proteger, selecionar e conduzir espermatozoides até as tubas uterinas. Assim, é nesta época em que contatos genitais não devem ser feitos, caso o casal não deseje ter filhos.

Como exige bastante conhecimento de seu próprio corpo e autocontrole, existem mulheres cuja ovulação não é regulada e, ainda, aquelas que possuem problemas de saúde que podem desencadear no aumento do muco da vagina; este método tem entre 3 e 25% de falha, já que depende mais da observação da mulher e do casal, do que do método em si. Assim, caso opte pelo MOB, pode ser interessante buscar um acompanhamento, seja pelo médico ou uma instrutora. Muitas igrejas oferecem, gratuitamente, cursos e orientações que contemplam esta questão.
É importante lembrar que o Billings, assim como os outros métodos contraceptivos, exceto a camisinha, não protegem contra a AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis.
Por Mariana Araguaia
Graduada em Biologia
Equipe Brasil Escola

12 de dez. de 2013

REGULAMENTO GERAL "LOBUNO" PARA A VIDA:


1- Comer
2- Descansar.
3- Vagabundear nos períodos intermediários.
4- Ser fiel.
5- Amar os filhos.
6- Meditar à luz da lua.
7- Aguçar o ouvido
8- Cuidar de seus ossos.
9 - Fazer amor.
10 - Uivar frequentemente.

Dr. Clarissa Pinkola Estes



10 de dez. de 2013

30 de nov. de 2013

A Grande Mãe Brasileira


in 

Brasil é o país que concentra o maior número de pessoas a cultuarem uma das manifestações da Grande Mãe, como Iemanjá, a deusa ancestral das águas, “A Senhora do Mar”. Só perde para a Índia, onde inúmeras deusas com diversos nomes e aspectos são cultuadas até hoje. Anualmente, às vésperas do Ano Novo e no dia dois de fevereiro, milhões de pessoas levam suas oferendas e orações para as praias brasileiras, ou saem em procissões marítimas ou fluviais, similares às antigas cerimônias egípcias e romanas – Navigium Isidi – dedicadas a Ísis, Deusa Mãe protetora dos viajantes e das embarcações.

Apesar da devoção brasileira a Iemanjá, seu culto não é nativo - ele foi trazido ao Brasil no século XIII pelos escravos da nação ioruba. Yemojá ou YéYé Omo Ejá, a “Mãe cujos filhos são peixes”, era o orixá dos Egbá, a nação ioruba estabelecida outrora perto do rio Yemojá, no antigo reino de Benin. Devido a guerras, os Egbá migraram e se instalaram às margens do rio Ogun, de onde o culto a Iemanjá foi levado pelos escravos para o Brasil, Cuba e Haiti.

Nesses países, Iemanjá passou a ser venerada como “Rainha do Mar”, orixá das águas salgadas, apesar da sua origem ter sido “o rio que corre para o mar”, sua saudação sendo Odo-Yiá, que significa “Mãe do Rio”. Analisando os nomes Ya/man /Ya e Ye/Omo/Ejá conforme a “Lei de Pemba”– a grafia sagrada dos orixás, postulada pela Umbanda Esotérica-, encontram-se os mesmos vocábulos sacros que significam “Mãe das águas, Mãe dos filhos da água (peixes) e Mãe Natureza”.

Iemanjá é considerada pela Umbanda Esotérica como uma das sete “Vibrações Originais”, sendo o princípio gerador receptivo, a matriz dos poderes da água, o eterno e Sagrado Feminino. Portanto, Iemanjá personifica os atributos lunares e aquáticos da Grande Mãe, padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, protetora e nutridora, mãe primeva que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos de fé.

No entanto, por mais que Iemanjá seja reconhecida e venerada no Brasil, ela não representa a Mãe Ancestral nativa, que tenha sido cultuada pelas tribos indígenas antes da colonização e da chegada dos escravos. Infelizmente, muito pouco se sabe a respeito das divindades e dos mitos tupi-guarani. A cristianização forçada e a proibição pelos jesuítas de qualquer manifestação pagã destruíram ou deturparam os vestígios de Tuyabaé-cuáa, a antiga tradição indígena, a sabedoria dos velhos payés.

Segundo o escritor umbandista W.W. da Matta e Silva e seus discípulos Rivas Neto e Itaoman, a raça vermelha original tinha alcançado, em uma determinada época distante, um altíssimo patamar evolutivo, expresso em um elaborado sistema religioso e filosófico, preservado na língua-raiz chamada Abanheengá, da qual surgiu Nheengatu, a “língua boa”, origem dos vocábulos sagrados dos dialetos indígenas. Com o passar do tempo, a raça vermelha entrou em decadência e, após várias cisões, seus remanescentes se dispersaram em diversas direções. Deles se originaram os tupi-nambá e os tupi-guarani, que se estabeleceram em vários locais na América do Sul.

As concepções religiosas do tronco tupi eram monoteístas, postulando a existência de uma divindade suprema, um divino poder criador (às vezes chamado de Tupã) que se manifestava por intermédio de Guaracy (o Sol) e Yacy (a Lua) que, juntos, geraram Rudá (o amor) e, por extensão, a humanidade. O culto a Guaracy era reservado aos homens, que usavam os tembetá, amuletos labiais em forma de T, enquanto as mulheres veneravam Yacy e Muyrakitã, uma deusa das águas, e usavam amuletos em forma de batráquios e felinos, pendurados no pescoço ou nas orelhas.

Guaracy era a manifestação visível e física do poder criador representado pelo Sol. Apesar do astro ser considerado o princípio masculino na visão dualista atual, a análise dos vocábulos nheengatu do seu nome revela sentido diferente. Guará significa “vivente”, e cy é “mãe”, o que formaria a “Mãe dos seres viventes”, a força vital que anima todas as criaturas da natureza, a luz que cria a vida animal e vegetal. Também em outras tradições e culturas (japonesa, nórdica, eslava, báltica, egípcia, australiana e nativa americana), o Sol era considerado uma Deusa, o que nos faz deduzir que, para os nativos tupi, a vida e a luz solar provinham de uma Mãe - Cy - que só mais tarde foi transformada em Pai. Yacy era a própria Mãe Natureza, seu nome sendo composto de Ya (senhora) e Cy (mãe), “a Senhora Mãe”, fonte de tudo, manifestada nos atributos da Lua, da água, da natureza, das mulheres e das fêmeas.

Cy - ou Ci - representa, portanto, a origem de todas as criaturas, animadas ou não, pois tudo o que existe foi gerado por uma mãe que cuida da sua preservação, do nascimento até a morte. Sem Cy (mãe), não existe, nem pode perdurar a vida, pois ela é a Mãe Natureza, o principio gerador, nutridor e sustentador da vida. Na língua tupi existem vários nomes que especificam as qualidades maternas: Yacy, a Mãe Lua; Amanacy, a Mãe da Chuva; Aracy, a Mãe do Dia, a origem dos pássaros; Iracy, a Mãe do Mel; Yara, a Senhora da Água; Yacyara, a Senhora do Luar; Yaucacy, a Senhora Mãe do Céu; Acima Ci, a Mãe dos Peixes; Ceiuci, a Mãe das Estrelas; Amanayara, a Senhora da Chuva; Itaycy, a Mãe do Rio da Pedra, e tantas outras mães – do frio e do calor, do fogo e do ouro, do mato, do mangue e da praia, das canções e do silêncio. As tribos indígenas conheciam e honravam todas as mães e acreditavam que elas geravam sozinhas seus filhos, sem a necessidade do elemento masculino, atribuindo-lhes a virgindade - o que também em outras culturas simbolizava sua independência e autossuficiência. Em alguns mitos e lendas, as virgens eram fecundadas por energias numinosas (sobrenaturais) em forma de animais (serpente, pássaro, boto), forças da natureza (chuva, vento, raios), seres ancestrais ou divindades.

A explicação da omissão na mitologia indígena do elemento masculino na criação era o desconhecimento do papel do homem na geração da criança, além do profundo respeito e reverência pelo sangue menstrual que, ao cessar “milagrosamente”, se transformava em um filho. Somente pela interferência dos colonizadores europeus e pela maciça catequese jesuíta que, na criação do homem, o Pai assumiu um papel preponderante, o Filho tornou-se o segundo na hierarquia, salvador da humanidade - como Jurupary, e à Mãe coube apenas a condição de virgem (como Chiucy). Porém, apesar do zelo dos missionários para erradicar os vestígios dos cultos nativos da cultura indígena e dos escravos, muitas de suas tradições sobrevivem nas lendas, nos costumes folclóricos, nas práticas da pajelança - e sua variante a encantaria - que estão ressurgindo, cada vez mais atuantes, saindo do seu ostracismo secular.

Outro arquétipo da Mãe Ancestral é descrito no mito amazônico da Boiúna, a “Cobra Grande”, dona das águas dos rios e dos mistérios da noite. Apresentada como um monstro terrível que vive escondido nas águas escuras do fundo do rio e ataca as embarcações e pescadores, a Boiúna ou “Cobra Maria” é, na verdade, a “Face Escura da Deusa, a Mãe Terrível, a Ceifadora”, que tanto gera a vida no lodo como traz a morte, no eterno ciclo da criação, destruição, decomposição, transformação e renascimento. Caamanha, a “Mãe do Mato”, é outro aspecto da “Mãe Escura” que protege as florestas e os animais silvestres, e pune, portanto, os desmatamentos, as queimadas, a captura e matança dos animais e a violência contra a natureza. Pouco conhecida, ela foi transformada em dois personagens lendários: Curupira e Caapora. Descritos como seres fantasmagóricos, peludos, com os pés voltados para trás, às vezes com um aspecto feminino, são os guardiões das florestas, que levavam os caçadores e invasores do seu habitat a se perderem nas matas, punindo-os com chicotadas, pesadelos, acidentes ou até mesmo com a morte.

Nas lendas guarani relata-se a aparição da “Mãe do Ouro”, que surge como uma bola de fogo ou manifesta-se nos trovões, raios e ventos, mostrando a direção da mudança do tempo. Em sua representação antropomórfica, ela torna-se uma linda mulher que reside em uma gruta no rio, rodeada pelos peixes e de onde se manifesta no ar como raios luminosos, ou então surge na forma de uma serpente de fogo, punindo os destruidores das pradarias. Em sua versão original, ela era considerada a guardiã das minas de ouro, que seduzia os homens com seu brilho luminoso, afastando-os das jazidas. Seu mito confunde-se com o do Boitatá, uma serpente de contornos fluídicos, plasmada em energia etérea com dois imensos olhos; ela guardava os tesouros escondidos, reminiscência dos aspectos punitivos da Mãe Natureza, defendendo e protegendo suas riquezas.

A deturpação cristã do mito punitivo pode ser vista na figura da “Mula sem Cabeça”, metamorfose da concubina de padre, que assombra os viajantes nas noites de sexta-feira (dia dedicado, nas culturas pagãs, às deusas do amor, como Astarte, Afrodite, Vênus, Freyja) e do Teiniágua, lagarto encantado que se transforma em uma linda moça para seduzir os homens, desviando-os dos seus objetivos.

Quanto ao significado esotérico de Muyrakitã, devemos decompor seu nome em vocábulos para compreender sua simbologia feminina: Mura - mar, água; Yara - senhora, deusa; Kitã - flor. Podemos então interpretá-lo como “A deusa que floriu das águas” ou “A Senhora que nasceu do mar”. Esta divindade aquática, considerada a filha de Yacy, era reverenciada pelas mulheres que usavam amuletos mágicos chamados ita-obymbaé, confeccionados com argila verde, colhida nas noites de Lua Cheia no fundo do lago sagrado Yacy-Uaruá (“Espelho da Lua”), morada de Muyrakitã. Esses preciosos amuletos só podiam ser preparados pelas ikanyabas ou cunhãtay, moças virgens escolhidas desde a infância como sacerdotisas do culto de Muyrakitã - vetado, portanto, aos homens. Nas noites de Lua Cheia, as cunhãtay, devidamente preparadas, esperavam que Yacy espalhasse sua luz sobre a superfície do lago e, então, mergulhavam à procura da argila verde. A preparação das virgens incluía jejum, cânticos e sons especiais (para invocar os poderes magnéticos da Lua), além da mastigação de folhas de jurema, uma árvore sagrada que contém um tipo de narcótico que facilita as visões. Enquanto as cunhãs mergulhavam, as outras mulheres ficavam nas margens do lago entoando cânticos rítmicos ao som dos mbaracás (chocalhos). Depois de “recebida” a argila das mãos da própria Muyrakitã, ela era modelada em discos com formato de animais, sendo deixado um pequeno orifício no centro. Em seguida, todas as mulheres realizavam encantamentos mágicos, invocando as bênçãos de Muyrakitã e Yacy sobre os amuletos, até que Guaracy, o Sol, nascia solidificando a argila com seus raios.

Esses amuletos, que ficaram conhecidos com o nome de muiraquitã, tinham cor verde, azul ou de azeitona e eram usados no pescoço ou na orelha esquerda das mulheres. Acreditava-se que eles conferiam proteção material e espiritual e que podiam ser utilizados para prever o futuro, nas noites de Lua Cheia. Após serem submersos na água do mesmo lago, os amuletos eram colocados na testa das cunhãs e com orações eram invocadas as bênçãos de Yacy e Muyrakitã.

No nível exotérico, profano, o muiraquitã é conhecido como um talismã zoomorfo, geralmente em forma de sapo, peixe, serpente, tartaruga ou de felinos, talhado em pedra (nefrite, esteatita, jadeíta ou quartzito), bem polido, ao qual se atribuíam poderes mágicos e curativos. Foram encontrados vários deles na área do baixo Amazonas, entre as bacias dos rios Trombetas e Tapajós, sendo chamados de “pedras verdes das Amazonas”.

Esta denominação folclórica pode ser uma confirmação do mito das Amazonas ou Ycamiabas, as “mulheres sem homens”, como foram chamadas pelo padre Carvajal, da expedição de Francisco de Orellana, em 1542. Os relatos míticos as descrevem como mulheres altas, belas, fortes e destemidas, longos cabelos negros trançados e tez clara, que andavam despidas e utilizavam com maestria o arco e a flecha para guerrear e caçar. Diz a lenda que elas escolhiam anualmente homens adequados para serem os pais de seus filhos, presenteando-os com muiraquitãs. Outras fontes afirmam que elas usavam ornamentos de pedras verdes esculpidos em forma de animais como objetos de troca com visitantes ou tribos vizinhas. Os missionários atribuíam aos índios tapajós a origem dos muiraquitãs, mas eles eram apenas seus portadores, não os fabricantes, exibindo-os como símbolos de poder ou riqueza, ou ainda como compensação na realização de ritos fúnebres, nas cerimônias de casamento ou para selar alianças e acordos de paz entre as tribos.
Ocultos em mitos, lendas e crenças, existem ainda muitos resquícios das antigas tradições e cultos indígenas. Descartando as sobreposições e distorções cristãs e literárias, poderemos resgatar a riqueza original das diversas e variadas apresentações da criadora ancestral brasileira, Mãe da Natureza e de tudo o que existe, que existiu e sempre existirá. Cabe aos estudiosos e pesquisadores atuais desvendar os tesouros históricos do passado indígena brasileiro, com isenção de ânimo e sem distorções, em uma sincera dedicação e lealdade à verdade original, para oferecer às nossas mentes as provas daquilo que os nossos corações femininos sempre souberam, ou seja, "que a Terra é a nossa Mãe e devemos cuidar dela”. 

Cada vez mais temos provas científicas desta verdade que existe nos nossos corações, ou seja, que nos tempos antigos os seres humanos veneravam e oravam para uma Criadora, guardiã dos portais da vida e da morte, cujos templos eram a própria Natureza e cujos nomes estão ocultos nas nossas memórias ancestrais. Por sermos seus filhos, somos todos nós irmãos de criação, interligados, conectados e responsáveis por fazermos parte da teia cósmica e telúrica da Sua Criação. Como Filhas da Grande Mãe brasileira, devemos lembrar e honrar que cada árvore, animal, pedra ou planta tem uma mãe, que existem guardiões da natureza que observam e julgam nossas ações e que a única maneira de garantir nossa sobrevivência é respeitar, cuidar e amar o solo sagrado sobre qual caminhamos, que nos alimenta e sustenta. Porém não devemos esquecer que a Mãe Natureza tem sua Face Terrível e antes que ela a torne contra nós, precisamos mudar nossas ações e atitudes, curar as feridas que infligimos no corpo da Mãe Terra, expandir nossa consciência, refazer crenças, valores e propósitos e consagrar nossas vidas para deixar um melhor legado para nossos descendentes.

Que a Grande Mãe perdoe nossas faltas e erros e que nos ajude salvar a natureza e manter a paz sobre a Terra!

Fonte: Teia de Thea
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